Canibais

Canibais: Paixão e morte na Rua do Arvoredo

Mais ou menos um ano atrás eu estava passeando por uma banca ou livraria, não lembro bem e vi uma seção de livros de bolso baratinhos. Como sempre, dei uma fuçada e além de um livro do Rousseau (Contrato Social, que ainda estou pela metade) achei esse: Canibais, do David Coimbra.

Só que desde que comprei o meu netbook[foot]Por sinal, devo um post sobre o ubuntu 9.10 nele. Uma dica: VALE A PENA.[/foot], a leitura praticamente parou! Tentaram me convencer a usá-lo como leitor de e-book, mas é simplesmente impossível: assistir filmes é BEM mais fácil! Acho que assisti de tudo, desde filme de arte iraniano até comédia de Bollywood (ok, tentei ver um tal de All the Best, mas não dei conta de terminar! Novela das sete dá de 10 a zero naquilo em termos de roteiro!) Aí nesse final de ano os seriados de assistir no banheiro[foot]i.e. Two and a Half Men, How I met You Mother (que mereceria um post a parte talvez), The Big Bang Theory, South Park...[/foot] secaram, só voltam ano que vem, ou quem sabe, temporada que vem... A solução foi deixar o netbook de lado e voltar à leitura, em livros... de papel... árvores mortas... Primeiro, pra acostumar o cérebro, já meio enferrujado depois de tanto tempo, os quadrinhos, com o excelente Nova York, do Will Eisner. Depois, o que estava mais a mão: Canibais.

Bom, voltando a quando eu comprei... Conheci o David Coimbra numa dessas listas de discussão na internet. "Conheci", na verdade, entre aspas. Ele nem deve saber quem eu sou 😀 Mas ele volta e meia mandava umas crônicas, e quem diz que não se fazem mais cronistas como antigamente, é porque não conhece o David Coimbra. Ou conhece, e sabe que mesmo antigamente não haviam cronistas como ele 😀

Eu nem sabia que ele escrevia romances, pra mim eram as crônicas no Zero Hora, vez ou outra encadernadas todas juntas, em forma de livros. Então quando bati o olho no livro, nem pensei, comprei logo. "Nem que seja pra mandar um trocado pro David Coimbra", pensei, "em troca de todas as crônicas que ele mandava, de graça, no nosso email". Se fosse ruim, não tinha importância, estava pagando pelo que já lera. Se fosse bom, eu estava no lucro.

E lucrei! Incrível, não sei como não me odeio por ter enrolado tanto pra ler! Desde minha tenra infância, apresentado aos romances históricos pelos Césares do Allan Massie[foot]ou talvez antes disso, com um romance que nunca mais vou lembrar de quem era, sobre um padre disfarçado em uma Cambridge medieval, investigando não-sei-mais que crime e que se depara com uma encarnação de cristo na forma de mulher, ou algo assim... Bem falando desse jeito parece um romance esotérico, e talvez fosse... eu era jovem e precisava do dinheiro...[/foot], depois as sagas do Cornwell, e por fim o belíssimo A Catedral do Mar. Então sempre passei meu tempo imaginando: qual seria o cenário ideal pra um romance histórico brasileiro? As bandeiras? O descobrimento? Ou seria lusitano demais?

David Coimbra achou o cenário ideal numa porto alegre do segundo império, com sua burguesia nascente, seus conflitos étnicos, seus personagens característicos (desde prostitutas a chefes de polícia), e também com seu crime mais famoso. É nesse cenário que David Coimbra colocou um trio de amigos: um sapateiro introspecto, quase intelectual, um padeiro gorducho e bonachão, e um anspeçada[foot]também tive de recorrer ao labirinto de falken pra saber exatamente o que era...[/foot] boa vida com seu cão. Em torno desse trio, toda porto alegre oitocentista circula para desvendar um crime que chocou e envergonhou a cidade. Um crime que fez de todos (ou quase todos) os porto alegrenses, Canibais.

Nova Habitante aqui de casa (e do blog)

Como todos sabem, um girino sem um cão é como um peixe sem bicicleta[foot]tentei achar o autor dessa frase, aparentemente era "A Woman without a man is like a fish without a bicycle", atribuída à feminista americana Gloria Steinem, mas derivada de um "grafiti" novaiorquino (fonte)[/foot]! Então depois de matutar muito (i.e. eu sempre quis isso, mas nunca tive coragem de dizer  em voz alta) decidi que meu novo cão seria um Scottish Terrier. A idéia era ao mesmo tempo ter um cão com temperamento similar ao do westie (and hence, da Lilica), sem ao mesmo tempo lembrar ela demais. O scottish, tirando quando é branco, é preto (ou brindle, mas vá lá, semi-preto)! Além da vantagem evidente no sistema de cotas raciais (sim, foi uma péssima piada racista)[foot]Depois comento se essa técnica de aumentar a visibilidade do blog funcionou![/foot], não corro o risco de olhar pra ela e ver a outra.

De repente aconteceu! No início do mês, descobrimos uma ninhada que já estava com quase 2 meses e ainda tinha uma filhotinha à venda! Corri atrás, telefonei, negociei, fui visitar e, ontem, finalmente trouxe pra casa esse bebezinho lindo que é a Lótus:

Lótus ainda com cara de perdida

Lótus ainda com cara de perdida

Por enquanto, no segundo dia de Lótus em casa, a coisa vai bem: ela faz xixi na cozinha e cocô no banheiro (no social, o dela ela nem tocou). Tem comido direito, brinca super bem com a Anita e só chorou de noite quando fez xixi, pra me chamar pra limpar (ô vida de pai, daqui a pouco é o tomás gritando: "Paiê, acabei, vem me limpar!"). Alias, o Tomtom também gostou dela! Pegou o focinho dela e tentou por na boca! Ela, claro, mais rápida que ele, escapou rapidinho e começou a lamber os pézinhos dele e puxar as roupinhas. Como estava migrando meus antigos álbuns de fotos do GPA, que parou de funcionar por excesso de velhice (usa bibliotecas perl que não vem mais na instalação default do meu provedor e que fiquei com preguiça de solicitar) pra uma plataforma nova, aproveitei e criei um álbum de fotos novo pra ela.

Se preparem! A Lótus agora vai ser nova habitante aqui de casa e novo instrumento de tortura dos leitores (minha mãe e aquele cara que eu pago pra ler e comentar) desse blog!

Falcão visita Raul Gil e pede encontro com mulheres

Deu no estadão de hoje[foot]É CLARO que é piada, né? O Link original pra notícia do estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,kadafi-chega-a-roma-em-visita-cercada-de-polemica,385316,0.htm[/foot]:

LIMEIRA - O presidente líbio Falcão, famoso por suas músicas irreverentes como "I'm not a dog no", "Black people car" e "Um Bodegueiro Na Fiec" (Eu sou VIP), chegou a Limeira nesta quarta-feira, 10, em sua primeira visita à São Paulo desde que assumiu o governo por golpe musical, há 40 anos. O líder líbio também requisitou um encontro com mulheres italianas proeminentes nos campos dos negócios, da política e da cultura. Ele deverá fazer uma palestra para 700 mulheres na sala de concertos de Roma. Sua noiva, Preta Gil fez careta quando ouviu!

Raul Gil recebe o Famoso astro internacional Falcão, que cantará em seu programa do final de semana sucessos como "I'm not a dog no", "Black people car" e "Um Bodegueiro Na Fiec" (Eu sou VIP). Seu pedido irreverente de um encontro com mulheres italianas deixou sua noiva, Preta Gil, de cara amarrada.


Homenagem à Lilica

Tomtom, Vaquinha eu e lilica

Tomtom, Vaquinha eu e lilica

Ainda tou abalado demais pra escrever qualquer coisa. Essa foi a ultima foto da Lilica antes dela nos deixar. Foram 3 maravilhosos anos na companhia dela que acabaram de forma trágica e repentina 🙁 Já nem sei como vou dormir a noite sem ter ela atrás do meu travesseiro, como colocar o Tomtom pra dormir sem ela do meu lado, esquentando minhas pernas. Que motivo vou ter pra passear? Sair de casa? Caminhar? Foram só 3 anos e eu já não sei como viver sem ela. Minha única alegria é saber que ela foi um cachorro feliz!

Tchau Lilica, você mudou minha vida pra melhor e merece todas as homenagens do mundo!

Quadrinhos da semana

Compre no Submarino

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Sangre de Barrio

[DUCARALHO]

Sangre de Barrio (Vida Louca, em pt_BR), do Jaime Martín.  Eu já tinha visto a primeiro capítulo em algum lugar, não sei se numa Animal antiga, numa edição do El Víbora que tenha passado pelas minhas mãos ou se já tinha comprado nos idos de antigamente, mas como folheei e vi que a história continuava muito além do que eu conhecia, resolvi comprar.

Pra quem foi punk de perfumaria, que nem eu, é ver o outro lado dos anos 80, numa barcelona onde o punk fazia sentido. Onde garotos de periferia viram marginais pra fugir da vida medíocre que sempre vão ter, do pai alcoólatra que abandona a família, vivendo em cortiços junto com traficantes e prostitutas. O traço é simples, em preto e branco, tipicamente underground, e vem acompanhado de uma excelente trilha sonora (com as letras das música acompanhando cada quadrinho em que Vicen liga o rádio ou usa seu walman). Composta principalmente do Punk e do underground espanhol (e barcelonense), as musicas encaixam e acompanham perfeitamente os quadrinhos e a narrativa. Dá uma vontade de procurar e reler ouvindo a as músicas da trilha (não sei se ia dar certo, já que é tudo em espanhol e eu não ia entender nem metade, mas que dá vontade, dá).

Tudo isso mostra a trajetória de Vicen antes, durante e depois do reformatório[foot]Na verdade a história pós reformatório é de outro Graphic Novel, Sangre de Barrio III: Nunca Nada, mas nessa edição da Conrad foi incluído junto.[/foot]. A insatisfação com a vida medíocre, a exploração e subserviência, que ele compartilha com Cepá, o líder da gangue, marcam toda sua trajetória, pessimista e trágica, até o final do livro. Pra quem não conhece, vale a pena conhecer. MUITO.

Compre no Submarino

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Palestina: Na faixa de Gaza

[MUITO BOM]

Palestina: Na faixa de Gaza é o segundo livro da séria Palestina, do Joe Sacco. O Joe Sacco é um reporter de guerra no estilo antigo: Entra nas zonas ocupadas em busca da história. Num estilo moderno também, já que procura sempre a versão do mais fraco, do ocupado, do perdedor. Além disso já ser uma raridade, ele não coloca isso em livros, quer dizer, em livros sim, mas não em palavras. Joe Sacco é "quadrinista de guerra"[foot]eu que inventei esse termo, lembrem-se disso quando todo mundo estiver usando.[/foot].

Eu já tinha lido dele trechos do Sarajevo. O cara é bom. O desenho é mais caricato, mais arredondado que o underground do Jaime Martín, e o próprio Joe Sacco na história é uma caricatura de si mesmo. Baixo, narigudo com cara de tonto e oclinhos redondos, cagão até a alma[foot]ou não, já que eu não teria coragem de fazer nem metade do que ele faz. Ele tem colhões só de poder amarelar enquanto escuta um tiroteio em um campo de refugiados.[/foot], meio mala também. É esse cara que entrevista dezenas de refugiados, tentando perceber como vivem, e o que sentem. Os desenhos são chocantes, mesmo suavizados pelo traço típico de de cartunista americano, mais pelo que representam do que pelo que realmente são. O cara é FODA.

Então se eu puxo tanto o saco dele, porque o Sangre de Barrio é [DUCARALHO] e este é só [MUITO BOM]? Bem, por mais que ele dinamize as coisas, tem toda a lentidão da narrativa, são entrevistas repetitivas com gente muito igual no seu sofrimento, sua raiva, sua frustração. Tem a coisa do traço pouco chocante, da personalidade meio "pastel" dele. Não, nem é nada disso. Sangre de Barrio é [DUCARALHO] porque mexe comigo, mexe com uma pessoa que eu já fui, que eu já quis ser. Mexe com o que eu já vivi, com o que eu já senti, com o que eu já vi. Porra, eu morei numa cidade de operários imigrantes na europa, eu sei o que é ser um moleque numa escola pública que não te leva a lugar nenhum. Eu sei o que é ter o relógio roubado só pra pegar ele de volta na segunda feira com um colega de classe e a desculpa de que "meu irmão não sabia que era seu, e pediu pra devolver". Eu sinto cheiro, sinto vida, sinto Sangre de Barrio correndo dentro de mim de novo. Palestina é [MUITO BOM], mas é só coisas que eu vejo de longe, no jornal...

Em Roma, coma os romanos!

Estádio de futebol inacabado.

Estádio de futebol inacabado.

O Ricbit me sugeriu blogar sobre Roma antiga (o fato dele estar por lá deve ter influenciado a decisão, não?) E depois de pensar sobre vários assuntos blogáveis, como comparar Júlio César com Al-Capone (depois de ler Paul Veyne falando que a constituição romana é semelhante à da máfia, que também daria um bom post mas precisaria de váaaaaarios dias pra pesquisar sobre a máfia antes de escrever), lembrei desse próverbio inglês:

When in Rome, do as the Romans do.

Que em bom português é normalmente traduzido por:

Em Roma, como os Romanos.

E resolvi blogar sobre a sua origem. Pra variar, vou mandar ver logo duas hipóteses, a girinada e a verdadeira (ou pelo menos mais provável, por falta de fonte realmente fiável sobre o assunto provérbios populares).

Primeira versão (a versão religiosa):

A primeira versão é religiosa. E começa assim: No início do cristianismo, a hierarquia entre os bispos da igreja católica ainda não estava totalmente definida, e essa coisa que temos hoje de One Pope to rule them all não existia ainda. Cada bispo era basicamente autônomo na sua cidade. Foi nessa época que Santo Agostinho, recém chegado de Roma questionou Santo Ambrósio (uma deliciosa cerveja canadense, por sinal) sobre as diferenças de costume. O que mais chocava o coitado do santo era o diabo do jejum:

Em Roma jejuamos na sexta feira, disse Agostinho.

Pois em Milão, não! Replicou Ambrósio.

Mas se eu venho de Roma, e sigo a igreja de lá, devo jejuar?

Olha, meu amigo, deixa eu te dar um conselho: Em Roma, coma os romanos! Em Milão, coma bife à milanesa!

Santo Agostinho, padroeiro da presidência do Paraguai.

Santo Agostinho, padroeiro da presidência do Paraguai.

Era, claro, um trocadilho infame quanto aos jejuns (jejuns, coma bifes, etc, entendeu???). E ao que parece, o chefe da guarda pretoriana, uma espécie de Protógenes Queiroz da época, tinha escutas apropriadamente colocadas nos principais gabinetes de autoridades (a pedido do imperador Teodósio Lula da Silva, que nega saber de qualquer coisa), escutou a hilária conversa e divulgou aos panfleteiros de plantão (que faziam o papel de divulgação de fofocas de forma impressa, algo mais ou menos semelhante às revistas semanais hoje em dia).

O resultado foi um rebuliço só: Bife a milanesa virou prato nacional, a ser comido nas sextas feiras, e o provérbio "Em Roma, coma os romanos" tomou o império de tal forma que Teodósio proibiu seu uso em locais públicos, mas de nada adiantou. A coisa só cedeu em meados do século XIX, na inglaterra vitoriana que se considerava o novo Império Romano e admirava de tal forma a sua antiguidade que ressuscitou e recriou tudo que por lá havia. Inclusive os provérbios. Mas o puritanismo dos vitorianos ainda sobrepujava sua admiração por Roma. Quando republicou e traduziu as cartas de agostinho, Robert Burton preferiu poupar a sociedade da época de tamanha devassidão, e deu a ela a nova tradução, que é a que conhecemos até hoje:

When in Rome, do as the Romans do.

Segunda versão (a versão laica).

É muito fácil atribuir provérbios romanos a religião, afinal Jesus mesmo, na bíblia, já diz: A César o que é de César. E foi mesmo César (um dos) quem protagoniza a nossa segunda versão. César, o Júlio, foi famoso por vir, ver e vencer. Augusto por pagar suas dívidas nas calendas gregas. Nero, coitado, por por fogo em Roma, e Cláudio por ser retardado e aleijado[foot]Na verdade não dá pra saber muito bem o que ele era, porque os antigos misturam muito isso de ser aleijado, retardado ou simplesmente sem noção. Uma dessas três coisas ele com certeza era.[/foot].

E depois eu que sou feio...

E depois eu que sou feio...

Pois foi esse mesmo Cláudio, que hora é retardado, hora um grande estudioso[foot]Olha só como as fontes sobre história romana são controversas...[/foot], quem recebeu o embaixador da Trácia, no ano de 43 DC[foot]Depois de cristo, nada a ver com a editora de quadrinhos[/foot]. E benzadeus, ele como bom romano que nunca tinha saído da itália e passava as férias de verão em Ariminum, achou o costume de arrotar depois da refeição simplesmente uma porcaria completa! Indignado, não só expulsou o embaixador de sua presença como mandou uma legião inteira para conquistar a Trácia (sim, a dinastia júlio-claudiana era meio temperamental: o Tio-avô dele, Júlio, contratou uma frota naval para perseguir e capturar os piratas que o haviam seqüestrado e depois os crucificou, isso tudo para cumprir uma promessa que ele fez pros próprios piratas, dá procê?).

Por fim, ele foi pessoalmente à capital da Trácia onde exigiu vassalagem ao Sátrapa[foot]Que é tipo um sacripanta, só que manda mais.[/foot] com um discurso sobre boas maneiras à moda romana. Pra terminar, o sair do palácio ainda indignado, soltou:

E de agora em diante, quando for a Roma, faça como os romanos!

Tomtom

Nasceu neste domingo 12/04/2009, às 4:16h da madrugada o tomtom. Como bom filho de nerd, já nasceu com um LOLCat próprio (baseado em idéia do kentaro).

Obrigado a todos que ligaram, escreveram, twittaram e orkutaram, não necessáriamente nessa mesma ordem... Ou não...

Preconceito não raro é engraçado, mas nunca benéfico.

(Ou a minha resposta aos absurdos da Ruth de Aquino)

Não sei, acho que essa tal Ruth, antes uma ilustre desconhecida fora do próprio meio, virou vedete da blogosfera não por mérito, mas por demérito. Mas já que tanto leite se derramou por conta dela, escrevi também minha resposta:

Quando eu era criança, lá nos idos dos anos 1980, morando num subúrbio parisiense cheio de operários imigrantes, ria a vontade com as piadas sobre árabes. Depois na minha adolescência na capital das alterosas, piadas de negros e judeus continuavam extraindo minhas gargalhadas. Na década de noventa o brasileiro já havia percebido o mal do racismo. Piadas agora eram sobre gays, e não mais sobre negros e judeus! Agora nos anos 2000 cuidamos para que estereótipos de grupos, sejam sociais, sejam étnicos, não mais apareçam de forma debochada e depreciativa. As piadas continuam engraçadas, vejam bem, mas sem precisar citar a cor da pele ou a opção sexual da pessoa. Não é mais "um negão" ou "uma bichinha", mas apenas "um sujeito" ou "um cidadão".

Imagine então, se hoje, no ano de 2009, uma jornalista de uma revista de grande circulação escrevesse uma crônica intitulada:

"O besteirol nas ONGs de orgulho Gay é melhor que no Senado"

Ou então uma com o subtítulo:

"Ler sobre ativismo de entidades afro-brasileiras é uma receita certa para dar risada."

Não há risada que justifique o racismo dessa frase! Não há besteirol que justifique a homofobia da primeira. Não há, Sra. Ruth, texto que "se propõe sobretudo a ser bem humorado" que justifique o preconceito expressado no seu artigo. Lembre que 30 anos atrás o preconceito contra negros era tão comum que ninguém se consideraria racista por contar uma piada de negros. E 20 anos atrás, ninguém se consideraria homofóbico por contar piadas de gays. O preconceito é cego. Se a Sra. não consegue ver o próprio erro é culpa do próprio preconceito. A intenção bem humorada do texto é calcada no preconceito contra a ciência e o cientista! É o tipo de "boa intenção" (e aqui entre aspas por que pessoalmente não vejo nada de boa nela) da qual o inferno está cheio.

Repense seus valores e conceitos, olhe bem para o que escreveu e entenda: ofender, estigmatizar e rir dos outros é sim preconceito, e como todo preconceito, nocivo à sociedade.