Em Roma, coma os romanos!

Estádio de futebol inacabado.

Estádio de futebol inacabado.

O Ricbit me sugeriu blogar sobre Roma antiga (o fato dele estar por lá deve ter influenciado a decisão, não?) E depois de pensar sobre vários assuntos blogáveis, como comparar Júlio César com Al-Capone (depois de ler Paul Veyne falando que a constituição romana é semelhante à da máfia, que também daria um bom post mas precisaria de váaaaaarios dias pra pesquisar sobre a máfia antes de escrever), lembrei desse próverbio inglês:

When in Rome, do as the Romans do.

Que em bom português é normalmente traduzido por:

Em Roma, como os Romanos.

E resolvi blogar sobre a sua origem. Pra variar, vou mandar ver logo duas hipóteses, a girinada e a verdadeira (ou pelo menos mais provável, por falta de fonte realmente fiável sobre o assunto provérbios populares).

Primeira versão (a versão religiosa):

A primeira versão é religiosa. E começa assim: No início do cristianismo, a hierarquia entre os bispos da igreja católica ainda não estava totalmente definida, e essa coisa que temos hoje de One Pope to rule them all não existia ainda. Cada bispo era basicamente autônomo na sua cidade. Foi nessa época que Santo Agostinho, recém chegado de Roma questionou Santo Ambrósio (uma deliciosa cerveja canadense, por sinal) sobre as diferenças de costume. O que mais chocava o coitado do santo era o diabo do jejum:

Em Roma jejuamos na sexta feira, disse Agostinho.

Pois em Milão, não! Replicou Ambrósio.

Mas se eu venho de Roma, e sigo a igreja de lá, devo jejuar?

Olha, meu amigo, deixa eu te dar um conselho: Em Roma, coma os romanos! Em Milão, coma bife à milanesa!

Santo Agostinho, padroeiro da presidência do Paraguai.

Santo Agostinho, padroeiro da presidência do Paraguai.

Era, claro, um trocadilho infame quanto aos jejuns (jejuns, coma bifes, etc, entendeu???). E ao que parece, o chefe da guarda pretoriana, uma espécie de Protógenes Queiroz da época, tinha escutas apropriadamente colocadas nos principais gabinetes de autoridades (a pedido do imperador Teodósio Lula da Silva, que nega saber de qualquer coisa), escutou a hilária conversa e divulgou aos panfleteiros de plantão (que faziam o papel de divulgação de fofocas de forma impressa, algo mais ou menos semelhante às revistas semanais hoje em dia).

O resultado foi um rebuliço só: Bife a milanesa virou prato nacional, a ser comido nas sextas feiras, e o provérbio "Em Roma, coma os romanos" tomou o império de tal forma que Teodósio proibiu seu uso em locais públicos, mas de nada adiantou. A coisa só cedeu em meados do século XIX, na inglaterra vitoriana que se considerava o novo Império Romano e admirava de tal forma a sua antiguidade que ressuscitou e recriou tudo que por lá havia. Inclusive os provérbios. Mas o puritanismo dos vitorianos ainda sobrepujava sua admiração por Roma. Quando republicou e traduziu as cartas de agostinho, Robert Burton preferiu poupar a sociedade da época de tamanha devassidão, e deu a ela a nova tradução, que é a que conhecemos até hoje:

When in Rome, do as the Romans do.

Segunda versão (a versão laica).

É muito fácil atribuir provérbios romanos a religião, afinal Jesus mesmo, na bíblia, já diz: A César o que é de César. E foi mesmo César (um dos) quem protagoniza a nossa segunda versão. César, o Júlio, foi famoso por vir, ver e vencer. Augusto por pagar suas dívidas nas calendas gregas. Nero, coitado, por por fogo em Roma, e Cláudio por ser retardado e aleijado[foot]Na verdade não dá pra saber muito bem o que ele era, porque os antigos misturam muito isso de ser aleijado, retardado ou simplesmente sem noção. Uma dessas três coisas ele com certeza era.[/foot].

E depois eu que sou feio...

E depois eu que sou feio...

Pois foi esse mesmo Cláudio, que hora é retardado, hora um grande estudioso[foot]Olha só como as fontes sobre história romana são controversas...[/foot], quem recebeu o embaixador da Trácia, no ano de 43 DC[foot]Depois de cristo, nada a ver com a editora de quadrinhos[/foot]. E benzadeus, ele como bom romano que nunca tinha saído da itália e passava as férias de verão em Ariminum, achou o costume de arrotar depois da refeição simplesmente uma porcaria completa! Indignado, não só expulsou o embaixador de sua presença como mandou uma legião inteira para conquistar a Trácia (sim, a dinastia júlio-claudiana era meio temperamental: o Tio-avô dele, Júlio, contratou uma frota naval para perseguir e capturar os piratas que o haviam seqüestrado e depois os crucificou, isso tudo para cumprir uma promessa que ele fez pros próprios piratas, dá procê?).

Por fim, ele foi pessoalmente à capital da Trácia onde exigiu vassalagem ao Sátrapa[foot]Que é tipo um sacripanta, só que manda mais.[/foot] com um discurso sobre boas maneiras à moda romana. Pra terminar, o sair do palácio ainda indignado, soltou:

E de agora em diante, quando for a Roma, faça como os romanos!

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